Os postais radioactivos de Fukushima

autoria Ana Marques Maia

// data 08/05/2018 - 14:41

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Ao chegar a Fukushima, no Japão, o fotógrafo Florian Ruiz viu-se confrontado com um perigo invisível: o da radiação nuclear. Durante três meses, munido de um dosímetro — um aparelho que mede a exposição de um indivíduo à radiação —, Ruiz captou imagens da paisagem natural da região mais afectada pelo desastre nuclear. "Com a minha câmara Fuji, analógica e de médio formato, fiz quatro imagens de cada local para criar imagens panorâmicas que se assemelham a painéis de gravuras iukyo-e", disse ao P3, via email. "Revelo e digitalizo o filme obtido e depois, através de manipulação digital, sobreponho fragmentos de cada uma das imagens — um processo que me pode tomar 30 horas de trabalho." Com este tipo de processamento, o fotógrafo obtém uma imagem que simula a movimentação das partículas nucleares nas zonas de maior concentração de radioactividade. O objectivo é causar vertigem, desconforto, tentar transmitir a claustrofobia causada por um perigo invisível que se esconde numa paisagem bela e, aparentemente, inerte.

 

O fotógrafo francês, que reside há vários anos em Tóquio, cria projectos "em contexto de desespero, mácula, desilusão" e tenta transmitir, fotograficamente, "as atmosferas, sensações e sentimentos que surgem nesses locais desolados", pode ler-se no seu website. É um adepto do equipamento fotográfico rudimentar, analógico, manual e realiza colagens e reordenamentos para reinventar e distorcer as paisagens que capta. O projecto The White Contamination, que realiza há vários anos, é composto, actualmente, por mais de 30 fotografias; o fotógrafo procura apenas atingir um número simbólico — que não revelou — para lhe colocar termo. Entretanto, o júri da edição de 2018 do Sony World Photography Awards considerou o projecto o mais criativo submetido a concurso.

Eu acho que