Manuel Roberto

Instalação

No Porto, há um jardim que fala com o passado através das plantas

A instalação sonora INsono abriu ao público os jardins centenários da Casa da Prelada para provar que as plantas também comunicam e fazem música. Pelo meio, alerta-se para o ruído constante que invade espaços recatados como este. Uma experiência para todas as idades

Texto de André Vieira • 07/06/2018 - 09:34

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Imaginemos um cenário em que perdidos num labirinto seguimos algo que nos atrai até ao centro do mesmo. Para lá chegarmos temos duas hipóteses: confiar na audição ou na visão. Para quem confia a orientação ao segundo sentido, há marcas ao longo do percurso que servem de guia. Os menos duros de ouvido deixam-se levar pelo som do chilrear de pássaros que se espalha precisamente desde o núcleo do emaranhado desenhado por arbustos.  

 

Na verdade, este é um cenário real e este é um percurso que não tem origem num sonho surrealista. Estamos no jardim centenário da quinta da Casa da Prelada, projectada por Nicolau Nasoni, que, depois de vários anos vedado ao público, reabriu em 2013 após obras de requalificação. O desafio faz parte de um projecto patente neste espaço desde o final de Maio até 10 de Junho que nasce da vontade da Associação Sonoscopia. Ao abrigo do programa camarário Criatório, o colectivo criou a instalação sonora INsono: o ouvido secreto das plantas - Jardim Sonoro partindo de um pressuposto: As plantas e a natureza no geral também comunicam através do som e a organização desses sons pode dar origem a uma narrativa.

 

Fazem parte dessa narrativa sons de um diálogo entre o vento e as árvores, entre os pássaros e os arbustos ou entre a chuva e a terra. A intrometer-se neste discurso há uma fonte de ruído que, fazendo parte da paisagem sonora, neste contexto, é um obstáculo à fluidez do mesmo: a VCI - Via de Cintura Interna. Desde a segunda metade do século XX, a estrada cortou a quinta a meio, separando os jardins em torno da casa de um terreno de 17 hectares onde, desde 1961 até 2006, funcionou o Parque de Campismo da Prelada, encerrado desde então, deixando a cidade sem qualquer outro equipamento para o efeito.

 

Serve esta instalação composta por seis peças também para alertar público de todas as idades para essa “invasão constante” que o ruído de fundo de carros ou outros veículos a motor representa no dia-a-dia das cidades. E que por uma questão de habituação passa ao lado da maior parte das pessoas que vive em metrópoles.

 

Apurar o ouvido para nivelar os sentidos

“Continuamos a guiar-nos muito pela informação visual que chega ao nosso cérebro e deixamos a audição para segundo plano", diz o gestor do projecto, Gustavo Costa. "A grande questão para nós que trabalhamos com som e música é precisamente alertar para esta questão da audição e para o som que está à nossa volta que, se o ouvirmos mais atentamente, pode ser integrado de uma forma musical ou então pode pura e simplesmente passar a ser uma barreira.” Não tendo ele próprio e o colectivo do qual faz parte limites no que toca à integração de qualquer elemento sonoro numa composição, o músico sublinha que no caso de um espaço com esta natureza, além da paisagem visual, todo o ambiente sonoro está a ser condicionado por factores externos que não pertencem àquele ambiente.

 

“De uma forma geral gosto de incluir todos os sons para fins musicais, mas há alguns que se tornam num obstáculo claro. Depende do propósito. Neste caso, trata-se de um jardim onde queremos desligar-nos desta pressão que a cidade nos impõe no dia-a-dia”, completa.

 

O barreira de som da VCI

Pois é a partir do momento em que nos chama a atenção para esta realidade que, de repente, a linha de som criada pelo ruído da VCI passa para primeiro plano e se torna uma presença que abafa qualquer outra. Há que recentrar para voltarmos a descer ao jardim. Ajudam, para isso, as peças da instalação distribuídas por aquele jardim do século XVIII.   

 

Gustavo Costa recorda-nos que em tempos distantes toda a área que vai do jardim da quinta ao antigo parque de campismo chegou a ser usada como zona de caça. Por ali terão andado animais como javalis. Já lá não serão avistados há séculos, mas há fauna e flora que ainda ali mora. Continuam as aves e as árvores centenárias residentes do terreno que até 1903 pertenceu à família Noronha e Menezes, altura em que doou a propriedade à Misericórdia do Porto. Depois disso, já foi um hospital de convalescentes, um centro de recuperação de diminuídos físicos e um lar da terceira idade. Após as obras de reabilitação, entre 2010 e 2013, a casa passou a ser um espaço cultural que também acolhe o Arquivo Histórico da Misericórdia do Porto, num edifício novo construído nas traseiras da casa.

 

Viajar ao passado à boleia do som

São os sons daquele jardim que guardam o legado daquele que foi o maior conjunto paisagístico projectado pelo arquitecto italiano responsável pela Torre dos Clérigos e que contam a história de um Porto que já não existe. A sinfonia de sons daquele espaço faz a ligação com esse passado.

 

Numa das áreas há um cone que pode ser direccionado. Instrumentos semelhantes foram usados noutras épocas para comunicar à distância. Serve para projectar a voz ou para ouvir sons distantes. Pode ser apontado para o foco desestabilizador para ouvir de perto o ruído dos carros que passam na VCI ou, em oposição, se virado para os pontos certos, para nos aproximar da “música” criada naturalmente pelos elementos do jardim. 

 

No lago central há uma estrutura montada nas árvores que o circundam. Suspenso nos ramos está um conjunto de cordas, accionadas por pequenos motores, que com a sua oscilação fazem soar notas diferentes. Aqui são as árvores que “falam”.

 

Do centro do labirinto de buxo (planta arbustiva) referido, que brevemente passará por um processo de restauro, o som que de lá sai é o da gravação do chilrear de pássaros projectado em colunas suspensas numa araucária com cerca de 30 metros de altura.

 

Noutra ponta do jardim há um espaço que funciona como ponto de reflexão. A casa montada para a instalação está protegida acusticamente para anular o barulho dos carros. Com uma janela protegida por um filtro vermelho apontado para a vegetação, pode ser usada para imaginar o jardim sem o som de fundo da VCI.

 

No topo de outra casa instalada noutra área estão montadas duas harpas eólicas e flautas que também funcionam com o vento. Há um sistema de tubos com comunicação com o exterior para onde se podem enviar vários sons. Esses sons comunicam através dos tubos e misturam-se com os que advêm das harpas e das flautas. Como em todas as outras peças, a matéria-prima é sempre a mesma. Não há som que não tenha origem em elementos do jardim.

 

“O Porto é mais do que um postal ilustrado”

A instalação INsono já teve vidas diferentes aplicada a outros contextos. Esta versão foi pensada especificamente para a Casa da Prelada. “Quando nos candidatamos ao Criatório esta foi a primeira escolha. Como se trata de um concurso, achamos que de alguma forma deveríamos retribuir a toda a cidade e em particular a esta zona do Carvalhido e da Prelada, onde está a sede da Sonoscopia”, sublinha.

 

Há outros motivos para a escolha deste local que desde a abertura ao público do projecto já recebeu a visita de “várias centenas” de pessoas, nas visitas livres e de grupo, que incluem escolas: “Há muita gente que não conhece este espaço lindíssimo. Quisemos também mostrar que a cidade não é só o postal do centro histórico. É importante pensar a cidade como um todo, passando pela Foz, Campanhã, Aldoar ou Ramalde. O Porto não é só o centro e é muito mais do que um postal ilustrado." 

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