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Música

“Isabelinha” tocou no Coachella e no programa do Conan O’Brien

Aos 22, Isabel Torres acaba de regressar de uma digressão pelos EUA. Como guitarrista de Declan McKenna, a portuguesa já passou pelo Coachella e pelos programas de Conan O‘Brien e Stephen Colbert. Em Portugal ainda pouco se ouviu falar dela — até quando?

Texto de Rute Marinho/Rádio Nova • 11/05/2018 - 18:35

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Isabel Torres tem 22 anos, nasceu no Porto, onde viveu até há quatro anos e meio, altura em que partiu para Inglaterra para estudar na BIMM London. Onde tudo mudou. Já passou pelo Coachella, trocou palavras com Conan O'Brien, sonha com o Ellen Show e com o Rock in Rio. Mas quem é esta jovem portuguesa que anda a correr o mundo?

 

A “Isabelinha”, como é tratada pela família, “tinha média de 19 valores, podia ter entrado em Medicina se quisesse”, revelou a orgulhosa tia, Ana Maia-Pinto, numa conversa, como tantas outras, em dia de festa. Uma conversa que, sem querer, esteve na origem deste artigo. “Amanhã ela toca no Coachella”, contou com um sorriso rasgado. Apercebendo-se do interesse demonstrado por quem a ouvia, agarrou no telemóvel para mostrar as publicações da sobrinha nas redes sociais. “Aqui foi quando a Isabelinha foi ao Conan O’Brien, aqui ao Stephen Colbert”, acrescentou, entusiasmada, até ser interrompida para um claro manifesto de intenções: “Sabes que eu sou jornalista e vou querer falar com ela?”

 

Desta pergunta (camuflagem de um pacto) até à conversa com Isabel Torres pouco tempo passou. O pedido da entrevista fez-se por email e a resposta chegou pelo mesmo meio, no mesmo dia, com palavras simples, toda a disponibilidade e sem deslumbramentos. Por uma miúda que, afinal, parecia ainda frequentar a escola secundária Garcia de Orta, no Porto, e não os principais palcos do mundo.

 

A artista portuense começou a praticar guitarra clássica aos oito anos, mas não propriamente a iniciar-se por peças clássicas, mais a "tocar pop e blues”. A “paixão” pela guitarra eléctrica veio com o início da adolescência, aos 13 anos, por causa da música dos Dire Straits e de Jimi Hendrix. “Ia muitas vezes a uma loja ao pé da rotunda da Boavista para olhar para todas as guitarras e sonhar que um dia conseguiria ter uma. E consegui. A partir do momento em que a comprei não consegui parar de tocar.” E passaram-se nove intensos anos. “Eu nem tinha amplificador, por isso, os meus pais não tiveram propriamente um choque. Pior foi aos nove anos quando toquei violino e isso era mais traumatizante para eles porque um violino quando mal tocado é horrível”, graceja.

 

Salto para a fama

A música, já se percebeu, passou de actividade dos tempos livres a vocação e profissão de Isabel Torres que quis, antes disso, completar a escolaridade obrigatória no Porto, sobretudo por acreditar existir “um pouco o estigma de que a música podia ser um último recurso", pois não sabia "fazer mais nada”. As notas afixadas nas pautas provaram o contrário e alargaram-lhe o leque de possibilidades — a família da guitarrista até achava que acabaria por tirar “um curso de arquitectura”. Porém, um ano antes de ingressar no ensino superior, decidiu candidatar-se a três escolas de música de Londres, praticando, na altura, “17 horas por dia”. A mudança para Inglaterra fez-se nessa altura e não teve retorno. Talvez já não tenha.

 

Foi a um ano de terminar o curso superior que Isabel Torres, sem nada a perder, se pôs na fila para a audição da banda do cantor vencedor do X-Factor — Shayne Ward — e foi escolhida. “Nesse momento eu achei que ia conseguir dar o salto e pôr o meu pé na indústria aqui em Londres que é difícil para uma pessoa que venha de fora”, sublinhou. Encaminharam-se para o estúdio do Mike Stock, reconhecido pelo The Guinness Book of Records como o mais bem sucedido compositor e produtor na história dos tops britânicos, e que já trabalhou com artistas como Paul McCartney, Kylie Minogue, Cliff Richard ou as Bananarama. “Ir a casa dele e ver todos os Grammy que ganhou foi surreal.”

 

Contudo, e contra todas as probabilidades, este sonho de Isabel Torres desmaterializou-se quando “infelizmente, essa tournée foi cancelada”. No entanto, como o verbo desistir parece não constar do dicionário da artista, acabou por chegar até “esta coisa com o Declan". "E pronto”, conclui, como se se tratasse de uma banalidade.

 

Sê-lo-ia se não fosse Declan McKenna o vencedor, em 2015, com apenas 17 anos de idade, do Glastonbury Festival's Emerging Talent Competition. O britânico deu nas vistas logo no lançamento do primeiro singleBrazil – definido pela BBC News como uma “canção extraordinariamente madura para um compositor de 16 anos”. Afinal, trata-se de um tema contra a FIFA, que, considera o cantor, escolheu o Brasil para a realização do Mundial de Futebol de 2014 sem demonstrar qualquer preocupação com os níveis de pobreza que afectam a população. Uma polémica que fez com que o artista desse nas vistas e atingisse o n.º 1 dos tops.

 

Conta Isabel que Declan estava à procura de uma banda, mas não queria contratar músicos mais velhos, com 50 anos. "Na altura, [ele] tinha 16 anos e estar em tournée envolve estar muito tempo juntos. Ou seja, queria ter uma banda de amigos, mas também de músicos profissionais e, portanto, pensou que poderia ir a universidades escolher.”

 

Desta vez, a portuense não teve de preocupar-se em apresentar-se como candidata porque a escolha partiu da própria BIMM London. Várias audições depois, conseguiu o trabalho. "A partir daí, passámos tanto tempo juntos que parece que não foi uma coisa tão pouco orgânica — hoje em dia somos todos amigos. Mas nessa altura foi isso: a Sony estava à procura de músicos e encontrou-me.” Parece tão simples quanto isto. Parece.

 

A digressão nos EUA e a actuação no Coachella

Foi assim que a 15 de Abril a portuguesa de 22 anos subiu ao palco do festival de música de Coachella, no deserto da Califórnia, um dos “cinquenta e tal concertos” da digressão nos EUA. Muitos deles sold out. “Estar em cima do palco foi um momento com o qual eu tinha sonhado durante muitos anos, talvez por essas imagens que as celebridades partilham nas redes sociais", confessa a jovem.

 

Para lá chegarem, ao palco Mojave, o mesmo dos Jungle, Django Django e Jamiroquai, passaram quase a noite inteira a guiar, uma vez que na véspera tinham actuado em Las Vegas. Dormiram apenas três horas. "Sentia-me tão cansada e ao mesmo tempo tão entusiasmada, foi uma experiência fantástica", recorda a jovem, com a voz a sorrir-lhe. Ainda que diga que se trata de “um festival aonde as pessoas não vão tanto pela música, mas mais pelas fotografias para as redes sociais e pelas aparências”.

 

Como guitarrista da banda de Declan Mckenna, Isabel Torres também já teve o privilégio de tocar em programas de televisão de apresentadores bem conhecidos do público português. A 11 de Abril passou pelo Conan on TBS, de Conan O'Brien. Confiante e tranquila, dominando a sua guitarra, a célebre PRS verde. “O Conan disse-me que adora a minha guitarra e que tem uma super parecida, só que de uma cor diferente e perguntou-me qual era o modelo. Eu nem sequer sabia que ele tocava guitarra.”

 

Antes, conta com uma passagem pelo The Late Show with Stephen Colberta 2 de Agosto de 2016, e pelo Later… with Jools Holland, na BBC, a 27 de Setembro do mesmo ano, onde Isabel dança ao som da própria música, balança-se, sacode o cabelo para um lado e para o outro, passeia-se pelo palco, sempre com a câmara a seguir-lhe os passos.

 

Tudo isto é o que se passa à frente das câmaras; porém, o que a faz preferir a televisão aos festivais são outros quinhentos. “É o que eu gosto mais de fazer porque, enquanto nos festivais acabamos por passar muito tempo na estrada, num contexto desconfortável, num camarim sem grandes confortos, nas televisões somos super bem tratados o dia inteiro. No [programa de] Conan O'Brien tínhamos cadeiras de massagens e pessoas a cozinhar para nós. Isso é um bocadinho mais glamoroso do que estar a viajar numa carrinha, apesar de aqui em Inglaterra andarmos numa casa ambulante, um tour bus, com 15 camas.”

 

Todo um universo com que um dia, ainda na casa dos pais, na Foz, a “Isabelinha” desejou conhecer como artista. “Eu cresci a ver estes programas todos e a sonhar em um dia poder lá tocar. Eu escrevia sempre isso nas listas de resoluções de Ano Novo e os meus pais diziam que eu tinha de escrever coisas mais realistas, mas eu também lhes dizia que, se nunca escrevesse, isso nunca iria acontecer”. E aconteceu. Como tal, há novas resoluções para as próximas passagens de ano: “Os programas de televisão onde ainda gostava de tocar eram os do Jimmy Fallon, do Jimmy Kimmel, o Ellen Show. Gostava imenso de tocar no Rock in Rio com um grande artista pop. Isso também é um dos meus objectivos. E uma coisa super cliché: adorava tocar em Times Square no concerto de Ano Novo.”

 

Em cima do palco

Olhando para as fotografias de Isabel Torres, à paisana, para Isabel, a guitarrista, as diferenças são evidentes. Aliás, é sobretudo depois de falar com Isabel que se sente que uma e outra vivem no mesmo corpo, mas não são a mesma. Uma, continua a ser uma miúda normal, a outra transforma-se em palco.

 

A Isabel Torres tem uma voz doce, fala um português que já se mistura com um british accent e ri timidamente com as perguntas. Pelas fotografias, há a Isabel de longos cabelos louros, calças de ganga, tops ou blusas que lhe deixam os ombros a descoberto, pulseiras, anéis e unhas pintadas. Tudo nesta guitarrista é feminino. E leva tudo isso para cima do palco — aos acessórios junta a atitude. “Antigamente, eu estava tão preocupada a tocar as notas, era tão perfeccionista que não conseguia relaxar em palco, mas mudei e hoje em dia pareço muito mais confiante, tenho uma personalidade diferente, tenho muito mais atitude e performance.”

 

Isabel confessa que se trata de um plano arquitectado para chegar ainda mais longe. “Eu tento não ficar parada completamente com a guitarra porque, no fundo, olhando para concertos dos AC/DC, dos Guns & Roses, etc, além da musicalidade toda, também há muito o aspecto do espectáculo e eu também tenho o sonho de tocar para uma banda enorme, por exemplo, para a Katy Perry. Sei que esse é um dos requirements [requisitos] e tentei desenvolver: tocar exactamente tudo, estando em movimento. Mas não temos nada coreografado. É o momento.” E para momentos como esses há uma inspiração chamada Orianthi, a guitarrista de Michael Jackson, “e que também era super feminina": "Quando eu era mais nova, ela era a pessoa que eu mais admirava.”

 

A figura pública

Contar todo este percurso de Isabel conduz-nos à inevitabilidade da questão do reconhecimento, que em Portugal apenas ocorreu pontualmente. “No outro dia, o Miguel Araújo seguiu-me no Instagram e disse: 'Sabia que tocavas guitarra, mas não sabia que eras tão internacional.' Também acho que o Rui Veloso já partilhou um vídeo meu no Facebook. Acho que algumas pessoas sabem do meu percurso, estudantes de guitarra, pessoas que querem fazer o mesmo que eu e vêem-me como uma motivação. Sentem que os sonhos deles são alcançáveis porque os meus também foram.”

 

No México, a história que tem para contar é outra, depois de — recentemente — ter sido protagonista de um momento que nunca imaginara. “Estava a jantar sozinha num restaurante e, a certa altura, os empregados e os cozinheiros começaram a vir ter comigo a pedir para tirarem fotografias. Achei estranho. Até que olhei lá para fora e vi que tinha sido perseguida por um grupo de cerca de 20 fãs que estiveram o jantar todo lá fora a tirar-me fotografias. As pessoas que estavam dentro do restaurante devem ter achado que eu era uma pessoa conhecida e, por causa disso, decidiram tirar uma fotografia”, conta. 

 

É uma consequência de pertencer ao showbiz com a qual parece estar bem resolvida. Atenção que estamos a falar de uma guitarrista que já tem clubes de fãs, que até criaram páginas para o seu ídolo: chamam-lhe Isabel The Angel. E sua guitarra, a famosa PRS verde, também já ganhou um espaço próprio. Resta apenas saber se Portugal vai fazer parte do roteiro da digressão de Declan McKenna: “Espero [que aconteça] no próximo ano, pelo menos na altura dos festivais de rock alternativo, como o Nos Primavera Sound. Gostava imenso que fosse no Porto, além de ter tudo a ver com o estilo de música da banda”.

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