Eduardo Guerreiro

Crónica

A morte do Chester Bennington é também nossa

A morte do Chester é também nossa – é a morte de uma banda, de concertos que arrepiaram, de uma voz inconfundível e é, sobretudo, a morte de diferentes gerações

Texto de Marta Guerreiro • 25/07/2017 - 10:37

Marta Guerreiro é emigrante e estudante de Jornalismo em Londres, escritora e activista

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Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park, suicidou-se. Pareceu fria e crua esta forma de começar um artigo? Foi intencionado.

 

I wanna heal, I wanna feel what I thought was never real / I wanna let go of the pain I’ve felt so long

 

Sempre que quero escrever um artigo questiono-me se esse será proveitoso para o crescimento individual. Raramente escrevo sobre temas que afectam todas as pessoas. O meu registo não é o de jornalismo musical, embora já tenha sido, o meu registo é direcionado a minorias.

 

Hoje não – hoje somos uma maioria – a maioria que viveu os anos de glória de Linkin Park.

 

I'm tired of being what you want me to be / Feeling so faithless, lost under the surface

 

A morte do Chester é também nossa – é a morte de uma banda, de concertos que arrepiaram, de uma voz inconfundível e é, sobretudo, a morte de diferentes gerações. Temos vindo a perder artistas maravilhosos mas confesso que devido ao ano em que nasci não acompanhei a carreira de muitos deles. Esta acompanhei, com os seus defeitos, com os seus altos e baixos, com a sua luz e a sua capacidade de chegar a tantos públicos diferentes. É por isso que me dói. É por isto que me dói – por sentir que isto também me pertence, que também me pertencia e que me abandonou. Sinto-me desamparada e a culpa não é do Chester, a culpa é da falta de sensibilização para as doenças que tomam conta de nós. A culpa é do suicídio. A culpa é da sociedade que ignora as pistas, os detalhes e que acaba a ser mais um empurrão para o precipício.

 

When my time comes / Forget the wrong that I've done / Help me leave behind some / Reasons to be missed

 

Considero todas estas pessoas como mestres. A sua partida nunca é em vão, a sua partida é muitas vezes uma forma de nos fazer abrir os olhos, de nos fazer progredir – de nos fazer acordar. Todas as pessoas que perdemos para o suicídio, são mestres e por isso estou-lhes inteiramente grata.

 

O Chester foi abusado em criança, mesmo amado o resto da sua vida por plateias cheias, a dor permanecia, como ele próprio dizia. O Chester foi aplaudido por milhões de pessoas mas foram poucas as que o abraçaram. Como é que eu posso afirmar isto? Por saber que a sociedade não está preparada para levar a sério o desespero individual. É um mal comum que afecta estas pessoas que nos trouxeram as nossas músicas favoritas – mas que também afecta outras, anónimas, que quem sabe não iriam trazer outras coisas maravilhosas para gerações futuras.

 

Fuck this hurts, I won't lie / Doesn't matter how hard I try

 

O meu irmão mais velho ofereceu-me Linkin Park e mesmo sem essa consciência, ofereceu-me o apoio incondicional da voz de uma banda nos meus dias de tamanha solidão. Dos meus 12 anos até aos 14 anos eles foram a minha salvação. Depois dos 14 anos continuaram ao meu lado, como melhores amigos, como companhia para qualquer coisa, não eram precisos pretextos. O meu irmão ofereceu-me aconchego quando a vida parecia querer expulsar-me. Eu não sei o que é que Linkin Park ofereceu ao meu irmão e aos restantes da sua geração mais velha que a minha, sei, no entanto, que quando eu me unia a ele, nós, um plural de gerações tão singulares, trazíamos a voz a gritar mais alto e fomos Numb, Breaking the Habit, Shadow Of The Day, Somewhere I Belong – fomos a perfeita ligação nunca imaginada devido a todas as nossas diferenças.

 

Linkin Park era playlist de quem gostava de pop, rock, metal, house ou hip-hop. Linkin Park juntou-nos e agora é a altura de devolvermos essa dádiva tão bonita. É a altura de nos juntarmos, independentemente das nossas diferenças - e respeitarmos as razões para os próximos anos não terem Faint ou Bleed It Out. Chegou o momento de abraçarmos o Chester – não, não vamos tarde, se abraçarmos o Chester estamos a prevenir perdermos tantos talentos, tantas vidas e tantas possibilidades. Se ouvirmos Linkin Park e nos lembrarmos que a depressão ganhou, ali, talvez consigamos mudar o mundo e abraçar também quem ainda não partiu.

 

I start again / And whatever pain may come / Today this ends / I'm forgiving what I've done!

 

Eles ofereceram-nos a união de gerações tão diferentes – tão iguais; vamos-lhes oferecer a aprendizagem – a dor de ficarmos a sós, por termos permitido que a solidão também lhes fosse colo.

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