Hélia Aluai e a dança entre o claro e o escuro

autoria Amanda Ribeiro

// data 09/02/2018 - 15:43

// 3622 leituras

Hélia Aluai costuma dizer que desenha porque não sabe escrever. Mas, na verdade, o desenho cresceu-lhe com os dedos, os olhos, o cabelo. "Não surgiu em determinado momento, esteve sempre lá e houve um momento na vida em que tive a oportunidade de o desenvolver — e aí, é como um vício, impossível de parar!", conta a ilustradora por email ao P3. 

 

Nascida em 1973, na Ilha do Sal ("quando Cabo Verde era ainda uma colónia portuguesa"), chegou a Portugal com seis meses, a Espinho, terra natal da mãe. Passa a infância em frente ao mar, "entre livros, folhas de papel preenchidas de retratos, casas e animais, lápis de cor, marcadores e paredes desenhadas tapadas por armários". Depois, fez o típico caminho de jovem artista do Porto. Escola Secundária Soares dos Reis aos 16, seguindo-se as Belas Artes, onde se formou em Escultura. Ainda não tinha concluído o curso e já trabalhava em decoração, o que a levou, em 2000, a fazer um mestrado em arquitectura. Já com o canudo na mão, uma nova mudança, desta feita para Lausanne, na Suíça, onde esperava trabalhar como arquitecta. Nunca o fez, mas conseguiu, em contrapartida, continuar a desenvolver o seu trabalho pessoal — sempre a piscar o olho a Portugal.

 

Hoje, Hélia Aluai faz um pouco de tudo: organiza workshops, ateliers para crianças, exposições (uma inaugurada esta quinta-feira, em Lausanne), e desenha, desenha muito. Por agora, prepara novas exibições, uma pequena edição e uma série de ilustrações para uma empresa de porcelanas com o tema das rainhas de Portugal. É-lhe difícil, muito difícil, descrever o seu trabalho. "Adoro descobrir o que os meus desenhos provocam nas pessoas, o que elas vêem, (...) isso chega mesmo a inspirar-me." O que sabe: que tenta criar um contraste entre o negro e o branco, a ausência de luz e a luz (nem precisava de o dizer, basta ver as imagens desta galeria). "O negro trabalho-o como uma mancha , num gesto espontâneo, rápido, único, o branco trabalho-o com um aparo, num traço controlado, repetido, organizado." Assim vemos as suas personagens, muitas vezes figuras femininas ou algo andróginas, sempre sem idade, a sair do escuro. "Como se elas estivessem lá, mas nós não as víssemos... como se elas estivessem entre nós e nós não as víssemos." Quase todas com uma expressão "calma, neutra", de quem vê sem julgar. Ao lado de umas poucas, mais críticas, que observam um mundo "do qual não fazem parte e nunca farão". A preto e branco. Quase sempre.

Eu acho que