Os últimos baleeiros do Alasca

autoria Ana Marques Maia

// data 14/02/2018 - 10:40

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A cidade de Utqiagvik (ou Barrow), no extremo Norte do Alasca — apenas a dois quilómetros de distância da fronteira com o Pólo Norte — é a casa de cinco mil habitantes, na sua maioria pertencentes ao grupo étnico inupiat, nativo da região, há mais de 1500 anos. Jana Harcharek, uma das pessoas inupiat retratadas, afirma, peremptória, que o seu povo tem orgulho na sua identidade. "Sabemos bem quem somos", garantiu ao fotógrafo Kiliii Yüyan, autor do projecto People of the Whale.

 

Tradicionalmente semi-nómadas e caçadores-recolectores, os inupiat são baleeiros há muitos séculos. No entanto, a "recém-criada" legislação de protecção da fauna marítima e a modernização das ferramentas de caça trouxeram mudanças consideráveis ao modo de vida desta população. "A vida dos nativos do Alasca mudou muito nos últimos 40 anos", disse Kiliii em entrevista ao P3, por email. "A mudança repentina deve-se às forças da colonização. No espaço temporal de uma geração, os inupiat passaram de caçadores-recolectores auto-suficientes a cidadãos modernos que têm acesso a televisão e internet." Como consequência, "os jovens deixaram de ter orgulho na ocupação dos seus pais", o que se traduz numa lacuna identitária. "Felizmente, a tradição baleeira, que é um elemento forte da sua identidade, mantém-se."

 

A ligação espiritual com a baleia "desempenha um papel fulcral na vida dos inupiat", explica Kiliii. "Os meus amigos baleeiros dizem que é a baleia que escolhe a quem se entrega; que a baleação não se trata de caçar a baleia ou de vencê-la, mas sim de um sacrifício voluntário do animal. Acreditam que os baleeiros que não seguem a tradição ou que não respeitam as baleias não são escolhidos por elas." A maioria das canções dos inupiat são dedicadas à baleias-da-gronelândia, a espécie que caçam de forma comunitária. O grande cetáceo é também o elemento central de inúmeros rituais de natureza espiritual e lúdica, como é o caso do Festival da Baleia Nalukataq. "Os inupiat e as baleias estão interligados e são inseparáveis." Segundo o fotógrafo, não existe para os inupiat qualquer conflito entre o acto de caça da baleia e o respeito que se nutre por ela. "Acreditam que para se respeitar um animal é necessário conhecê-lo — e que para conhecê-lo é necessário depender dele. Da perspectiva indígena, os ambientalistas ocidentais travam uma batalha perdida porque se consideram um elemento externo ao ecossistema." Se, por um lado "as regiões dominadas por povos indígenas se mantêm em equilíbro durante milénios", argumenta, "as áreas de exploração não-nativa sofrem abuso e destruição".

 

As alterações climáticas e a exploração petrolífera na região constituem outra força "implacável" em direcção à mudança. O degelo dificulta a baleação; a destruição da camada de permafrost faz com que as reservas de comida conservadas no gelo pelos inupiat se percam; partes da cidade, junto à costa, vão sendo engolidas pelo oceano. O número de suicídios cometidos por jovens indígenas, na região, representa uma das taxas mais elevadas do mundo. "É muito pior na Gronelândia ou no Alasca Ocidental, mas, ainda assim, em Itqiagvik a taxa é três vezes superior à observada no restante território dos Estados Unidos. Segundo os especialistas, o fenómeno está relacionado com a perda das tradições e da cultura original. A juventude indígena não pode praticar o mesmo estilo de vida dos pais, sobretudo devido a imposições legais e à perda de território. Os jovens não conseguem adaptar-se inteiramente ao estilo de vida ocidental, sentem-se encurralados e sem perspectivas de futuro."

 

Kiliii Yüyan é de etnia Nanai, originária da Sibéria. "Cresci sobretudo nos Estados Unidos, apartado da minha terra-natal e da sua comunidade", explica. "Graças à minha avó, sempre nutri um interesse especial por estilos de vida tradicionais. Posso dizer que passei a minha vida inteira à procura de uma parte de mim que sinto ausente." Kiliii é construtor de barcos tradicionais e é perito em técnicas de caça. "O meu mantra — e o mantra da maior parte das culturas indígenas é 'Terra é Vida'. Para os nativos, tudo tem princípio na terra e, quando voltamos a ela, tornamo-nos apenas mais saudáveis e fortes. Ser parte da natureza não é bom apenas para os indígenas: é bom para todos os seres humanos."

Eu acho que