Direitos Humanos

Um documentário para lembrar que a escravatura no Brasil não acabou

“A Força dos Pequenos”, da jornalista Patricia Simón, é o retrato de como um centro de direitos humanos pode ajudar na luta contra a escravatura no Brasil. Documentário é exibido a 10 de Janeiro no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

Texto de Tiago Ramalho • 09/01/2018 - 16:39

Distribuir

Imprimir

//

A A

Maranhão, 2018: este estado brasileiro continua líder numa das piores estatísticas. O Observatório Digital do Trabalho Escravo no Brasil, tendo por base dados do Ministério do Trabalho daquele país, conta mais de 8000 trabalhadores maranhenses resgatados de situações designadas por escravatura desde 2003. A mortalidade infantil ronda os 15 por cento, a pobreza atinge mais de metade da população — é o único estado brasileiro em que isso acontece.

 

Maranhão, 1994: há 24 anos, Carmen Bascarán troca o noroeste espanhol pelo brasileiro. As Astúrias ficam para trás e instala-se neste estado, onde nem o governo brasileiro nem a Organização Internacional do Trabalho reconhecem a existência de escravatura. A espanhola, natural de Oviedo, deixa os filhos — já adultos — e, depois da oposição franquista na juventude, abraça outra luta, agora em solo brasileiro. Chega como missionária laica, a tentar perceber em que pode ajudar.

 

Há dois anos, Patricia Simón decidiu abordar o percurso de Carmen Bascarán pelo Noroeste do Brasil, em luta contra a escravatura e pelos direitos humanos, e o resultado de gravações antigas, entrevistas e histórias de sucesso do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos, em Açailândia, no Maranhão, são expostas num documentário. A Força dos Pequenos tem exibição agendada para as 14h30 desta quarta-feira, 10 de Janeiro, no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, com presença de Carmen Bascarán

 

O Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos Carmen Bascarán nasce pouco depois de Carmen chegar, em 1996, para dar voz à exclusão e opressão social no município de Açailândia. Vinte anos depois, a voz da espanhola serve de guia ao documentário A Força dos Pequenos, realizado pela jornalista Patricia Simón, que navega entre o início do centro e as histórias dos que encontraram uma saída e hoje se debatem pela causa negra, pelo ambiente ou pelo combate às desigualdades sociais.

 

A “miséria absoluta”

A primeira vez que Patricia Simón aterra em Açailândia acontece em 2005. Conhece Carmen Bascarán através de um amigo em comum, com o objectivo de ver o trabalho do centro naquela região. “Entro em contacto com a miséria absoluta, mas também com a possibilidade da transformação real, com o trabalho de defesa dos direitos humanos que neste caso era muito visível, porque eles estavam lá há poucos anos e já tinham conseguido que a erradicação do trabalho escravo fosse uma prioridade para o governo de Lula da Silva”, diz a jornalista espanhola, recordando o Primeiro Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, em 2003.

 

O documentário pega nos 20 anos que vão desde o início do centro até a uma altura decisiva para a própria organização sem fins lucrativos: a destituição de Dilma Roussef. O corte consequente dos apoios às organizações sociais e de direitos humanos afecta a instituição, que se financiava através de recursos próprios e com fundos do governo. “Com estes cortes, o centro viu-se na situação em que estava há 20 anos: sem dinheiro”, explica Patricia Simón. “Era o momento ideal para recordar às pessoas do centro o que tinham sido capazes de fazer sem dinheiro.”

 

Há um antes e depois do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos Carmen Bascarán na vida de Açailândia. “Estamos a ver jovens que ganharam poder e que antes estavam condenados se não existisse o centro, pois o seu destino era também transformarem-se em trabalhadores escravos ou em prostitutas", diz a jornalista de 34 anos. "E o centro, através da arte, da música, da dança, do teatro, conseguiu convertê-los em defensores dos direitos humanos.”

 

A jornalista freelancer pegou nas gravações que o próprio centro foi fazendo desde o princípio, anexou-lhes entrevistas e as histórias de sucesso que se acumularam após a saída da instituição. Histórias como a de Maria Lúcia, uma rapariga negra que negava a sua própria cor em virtude de toda a discriminação que existia e que, hoje em dia, é uma activista pela causa negra no Brasil. O documentário nasce apenas para as pessoas que rodeiam a instituição no Brasil; depois, contudo, perceberam que havia um potencial maior.

 

“Aos adultos, surpreende a força da protagonista [Carmen Barascán] e também os paralelismos com o que se passa na Europa, com condições de trabalho muito graves, salários paupérrimos, muita precariedade”, esclarece Patricia Simón. Mas o documentário tem um particular impacto nos estudantes do ensino secundário. “Pessoas com 14, 15 ou 16 anos que nem têm ideia que isto acontece. Não sabiam que existiam estas condições de vida. O facto de se usar a arte como instrumento de mudança fascina-os, de se poder criar cidadãos muito mais livres e capazes”, reflecte, após a experiência em várias escolas por onde o filme tem rodado.

 

O documentário de 50 minutos foi feito com um orçamento de 1200 euros — provenientes de um grupo de pessoas, a ADEPAL, que apoia o centro com algum dinheiro — e sem qualquer publicidade. A ideia passa também por despertar as consciências de quem está mais confortável. Patricia Simón sublinha: “Se não zelarmos pelos direitos dos outros, os nossos próprios direitos serão também mais vulneráveis”.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que