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Crónica

Corações bêbados

Volátil, frágil e irrequieta, devo grande parte dos meus amigos aos momentos de aborrecimento em que meti conversa com aquela pessoa aleatória que parecia estar ainda pior do que eu

Texto de Pilar Burillo Simões • 14/12/2017 - 12:32

Pilar Burillo Simões
Estudante de medicina. Escreve por diversão, normalmente em transportes públicos e na página The Nutsbook.

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Costumo dizer aos meus amigos, entre risos, que sou constitucionalmente bêbada. Naturalmente que os pobres coitados, por me conhecerem, sabem que isto não significa que inicie a minha rotina matinal com um Cosmopolitan. (Bolas, agora que penso nisso, seria extremamente estiloso... Como é que não me lembrei disto antes?!) Mas significa que o meu comportamento basal é facilmente comparável ao de alguém que já compreendeu — esperemos — que vai ter de ir de táxi para casa.

 

Ora vejamos. É unânime que a minha voz é irreparavelmente mais alta do que deveria. Nunca ninguém me pedirá para falar mais alto a não ser que deseje receber gratuitamente uma perfuração timpânica. Além de que, supostamente perdi alguma audição em criança, o que faz de mim a perfeita encarnação quotidiana daquele alcoolizado profundamente irritante no meio da discoteca que responde a tudo com o clássico "O queeeeeê?!" cuja vibração poderia, com naturalidade, gerar um maremoto no Sri Lanka.

 

Depois temos a coordenação motora. Ah, a coordenação motora. Aquele dom que fazia com que a bola que eu ia claramente agarrar com a mão me acertasse na cara, durante a aula de Educação Física, e que a única lesão que eu tenha tido na vida seja uma entorse conseguida a cair — juro que é verdade — em cima de mim mesma. E que ainda hoje faz coisas maravilhosas como conseguir que eu caia, escorregue ou tropece a cada 100 metros que percorra. Soa-vos familiar? Só me falta andar agarrada às paredes ou às pessoas para que a GNR me aborde. O que, se calhar, deveria começar a fazer. Para minha própria segurança.

 

Mais do que muitas pessoas poderão contar alguma história sobre como me salvaram de ser atropelada. Também aqui sou a jovial e ébria criatura que se lança para o meio da estrada qual prado luxuriante de girassóis. Apesar disto — sim, de tudo isto e de tudo o que omiti para salvaguardar um mínimo de dignidade pública —, ser constitucionalmente bêbada tem as suas vantagens.

 

É claro que se, não obstante tudo isto, eu ousasse tocar em álcool, seria muito mais do que bêbada. Seria estúpida. E apesar de tolerar relativamente bem a primeira, rejeito a segunda o mais possível. De modo que sempre se acaba por poupar imenso dinheiro em bebidas alcoólicas cada vez que se sai à noite. Mas há mais.

 

Quando comecei a sair à noite, era ingénua o suficiente para acreditar com toda a minha alma que as pessoas bebiam porque gostavam. Simplesmente porque lhes apetecia, como a mim me apetece uma Coca-Cola. Eventualmente percebi que estava flagrantemente enganada. A minha geração não bebe por prazer. Bebe para se desinibir, bebe para conseguir interagir socialmente, bebe para poder dizer e fazer aquilo que gostaria, mas que jamais teria coragem para concretizar, estando sóbrio. Toda uma nova forma de vergonha, de cobardia social.

 

Recordo agora, com perfeita nitidez, aquele episódio em que, numa festa de faculdade, fui abordada por um rapaz que apenas conhecia. Perguntou-me se eu queria acabar com a garrafa dele, um daqueles símbolos "millenialistas" que contêm água apenas no rótulo e nunca no interior. Algures por entre a verborreia dele, pude distinguir: "É horrível, mas esta era a única forma de eu vir aqui e socializar, por isso acabei por beber quase tudo."

 

O sentimento de incompreensão preencheu-me por inteiro. Espera, o quê? É assim tão difícil vires ter comigo e dizeres-me "olá"? Épocas houve em que isto era realmente muito difícil. Chegarmos uns aos outros, encontrarmo-nos, era um exercício de persistência: as distâncias eram intransponíveis e as barreiras sociais e morais múltiplas. Hoje, as redes sociais a que quase todos pertencemos permitem-nos conhecer e encontrar e combinar, em minutos, desde café a sexo e, com sorte, ambos. Impomos as nossas próprias barreiras e temos liberdade e, acima de tudo, facilidade logística para nos relacionarmos com quem quisermos.

 

E, no entanto, a liberalização social completa, com a criação de um espaço literalmente virtual no qual não existem barreiras e tudo é permitido, acabou por construir, qual efeito secundário não previsto, barreiras físicas inesperadas. Somos livres de falar e conhecer quem quisermos, mas temos vergonha e receio de o fazer se não for em frente a um ecrã. Tornando-nos mestres indiscutíveis da comunicação através do canal informático, perdemos o talento inato de o fazer pela via clássica da interacção social quotidiana. E dizer "olá" a um conhecido em pessoa torna-se, subitamente, algo mais estranho do que repetir o mesmo gesto, com um estranho, através de zeros e uns.

 

Depois há a questão dos estímulos. Em medicina, é sobejamente conhecido o conceito da dessensibilização dos receptores. Sumariamente, a exposição exuberante a algo tende a tornar-nos progressivamente mais insensíveis ao estimulo, como mecanismo de protecção. Traduzindo, tal como com as drogas: vamos precisando de doses progressivamente mais altas para sentir os mesmos efeitos. Ficamos dormentes.

 

Perdendo a capacidade de apreciar o prosaico, tudo tem de ser #wild, #free e #blissful para provocar sequer um esgar de contentamento. Especialmente quando tudo parece mais do mesmo: as mesmas interacções sociais com a profundidade de um copo de água e um maremoto de imagens repetitivas. As mesmas poses, os mesmos filtros, a mesma miséria interior gloriosamente mascarada em felicidade via Photoshop e momentaneamente adormecida pelos likes, de forma inversamente proporcional à de quem carrega no botão, movido pelo aborrecimento e pela inveja de algo que sabe que, no fundo, é mentira.

 

Tudo isto — a dormência e a infelicidade — convida a perdermo-nos, a abandonarmo-nos ao descontrolo como única via para alterar o estado presente. Os meus amigos chamam a isto "arranjar coragem liquida". A verdadeira razão pela qual deveriam ter fechado o Urban, esse panteão da decadência.

 

Falta-me confessar que acho que temos todos corações bêbados. Mergulhados neste mar, muitas vezes instáveis, demasiadamente imprevisíveis, com frequência, assustados e sempre, mas sempre, inquietos.

 

Neste sentido, a minha embriaguez que seria, à partida, uma desvantagem monumental, aproxima-se "darwinianamente" a uma adaptação evolutiva. Volátil, frágil e irrequieta, devo grande parte dos meus amigos aos momentos de aborrecimento em que meti conversa com aquela pessoa aleatória que parecia estar ainda pior do que eu. O típico bêbado que tenta tomar conta de outro bêbado. Com a vantagem abrumadora de me recordar de tudo no dia seguinte.

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