Manuel Fernando Araújo/Lusa

Ensino superior

Para eles, a medicina tradicional chinesa é “uma paixão, um envolvimento e uma ousadia”

José Azevedo, Ana Correia, Alexandra Lopes e Alexandre Soares concluíram o mestrado em Medicina Tradicional Chinesa no ICBAS. Em reacção aos comentários da Ordem dos Médicos, os quatro profissionais elogiam as potencialidades desta área

Texto de P3/Lusa • 16/04/2018 - 11:11

Distribuir

Imprimir

//

A A

A medicina tradicional chinesa tem um mestrado num instituto superior do Porto há uma década, seduzindo muitos dos que o concluíram para exercer a actividade em Portugal e utilizar os seus métodos em múltiplas áreas da medicina convencional. Tendo como denominador comum o mestrado em medicina tradicional chinesa (MTC), que realizaram no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), do Porto, quatro especialistas relataram à Lusa as mais-valias da sua opção, por oposição à recente acusação da Ordem dos Médicos de "falta de estudos científicos" que comprovem a utilidade daquelas práticas.

 

Acupuntura (aplicação de agulhas em pontos específicos do corpo para tratar doenças e promover saúde), fitoterapia (terapia recorrendo a plantas), Tui Na (massagem terapêutica), Dietoterapia (terapia alimentar) e Gi Gong (ginástica energética) são as cinco especialidades da MTC. Formado na Faculdade de Medicina do Porto em 1975, José Azevedo disse à Lusa sempre ter sentido "uma abertura muito grande para outras formas de fazer medicina", iniciando a sua busca pela complementaridade "através de cursos de homeopatia e de fitoterapia antes de começar a estudar a MTC, no ICBAS". "É uma pena que muitos dos meus colegas não estejam abertos a esta forma de ver a medicina, pois são pessoas mais empobrecidas. A riqueza vê-se quando nos abrimos a outras formas do saber."

 

Defendendo a "importância" da complementaridade médica, José Azevedo salientou que a alopatia (medicina tradicional) "resolve muitas questões que as outras não resolvem", citando os casos em que é imperioso o recurso aos "cuidados intensivos ou das cirurgias". Confessando que hoje a "forma de ver o doente e a doença é completamente diferente" da que conheceu quando se formou em 1975, o médico do Porto defende, por isso, uma "prática que integre todo o conhecimento".

 

Licenciada em Anatomia Patológica pela Universidade do Porto, Ana Correia descobriu por acaso, há 20 anos, num artigo, "uma referência à acupuntura" e mais tarde ingressou no ICBAS. Hoje, não tem dúvidas em afirmar a "evolução havida em Portugal, em termos de formação", esperando que o passo que venha a seguir-se ao da licenciatura aprovada pelo Governo seja o da "regulamentação da actividade". "A MTC é uma paixão, um envolvimento e uma ousadia. Temos de ter as três coisas", confessou Ana Correia, explicando que a acupuntura "funciona muito bem nas dores agudas, nas ciáticas e lombalgias". Mas funciona também noutras abordagens, "em patologias crónicas, alergias, asma, renite, sinusite, depressão, insónia, ansiedade e, como adjuvante da medicina tradicional, em qualquer outro tipo de patologias, como a fibromialgia", completa.

 

Alexandra Lopes conheceu a MTC depois de se formar em Ciências Farmacêuticas, sentindo no corpo os benefícios de uma terapia a que se submeteu, e que a convenceu a procurar saber mais. "Fi-lo porque vi que a minha base científica era aproveitada no ensino da MTC", explicou Alexandra Lopes a propósito de um curso que "faz muito o paralelismo entre as duas abordagens". E sustenta que "quem estuda esta área deve começar por a aplicar em si próprio". Essa aprendizagem valeu-lhe, hoje, ser capaz de, "quando a pessoa entra no consultório ou na farmácia, ter logo indicações para poder fazer o diagnóstico, o que torna muito interessante juntar as duas coisas".

 

Para Alexandre Soares, enfermeiro com especialização em MTC, "por vezes há determinados aspectos e pormenores que escapam a outras abordagens" e nisso a MTC tem um conjunto de saberes "muito bom", acrescentou, enfatizando que a "aplicação no Serviço Nacional de Saúde do que aprendeu na especialização seria uma mais-valia". "Aplicar o que aprendi no SNS seria uma mais-valia, pois há uma série de problemas que seriam certamente minorados devido aos diferentes ramos da MTC que conseguem ter um impacto na qualidade de vida do utente", concluiu.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que