Nelson Garrido

Valongo

Dos restos em pó da ardósia criou-se um novo material sustentável

Há uma "quantidade enorme" de matéria-prima que está a ser desperdiçada pela Lousas de Valongo. A empresa que explora ardósia percebeu isso e juntou-se à Fibrenamics para criar um produto moldável. De lousa, só tem uma parte — e em pó

Texto de Renata Monteiro • 16/04/2018 - 18:35

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Não renasceu das cinzas, mas do pó. Mais exactamente das partículas deixadas após a rectificação da ardósia e da secagem das lamas que, até agora, constituíam parte dos “muitos” resíduos minerais da empresa Lousas de Valongo, no Porto — que deposita, nas minas antigas, pouco menos de nove toneladas de pó por dia. Mas onde uns viam desperdício, a Fibrenamics viu uma “quantidade enorme de matéria-prima” que estava a ser descartada e deu-lhe um novo uso com a Slatetec, a tecnologia desenvolvida com o objectivo de “valorizar os resíduos produzidos na extracção e no tratamento da ardósia”, explica Raul Fangueiro, coordenador da plataforma interdisciplinar da Universidade do Minho.

 

Dois anos depois, já se pode tocar no resultado do projecto: são placas leves, com cerca de quatro milímetros de espessura, que podem “ser trabalhadas e usadas para diversos fins”. Num primeiro momento, as placas deverão ser utilizadas no revestimento de fachadas de edifícios, devido à alta durabilidade do material. Poderão também revestir pisos e paredes ou ganhar novas formas em elementos decorativos ou peças de mobiliário.

 

Isto porque o produto pode adquirir várias texturas superficiais, através do uso de poeiras com diferentes granulometrias e, ao contrário da ardósia natural extraída em Valongo, que tem uma cor entre o cinzento-azulada e o cinzento-escuro, impossível de ser alterada, “ganha valor acrescentado” ao poder ser produzido em diferentes cores, consoante os corantes adicionados à massa constituída pelo pó e por um ligante que lhe dá forma. O material também é moldável e, por isso, é possível “produzir elementos tridimensionais sem qualquer problema”, como lavatórios, exemplifica Raul Fangueiro. “Estas aplicações com a ardósia são impossíveis, porque ela parte, devido à sua composição natural, quase em forma de lascas”, diz Fernando Cunha, o engenheiro responsável pela Slatetec.

 

A estas valências junta-se a “capacidade antimicrobiana”, ou seja, o material “impede” que se desenvolvam “microorganismos na sua superfície”, assegura o engenheiro. Esta característica torna a rocha metamórfica “num produto muito mais versátil”, abrindo-lhe a porta a mais mercados “como o do mobiliário técnico para hospitais, laboratórios ou clínicas”, onde antes não conseguia entrar, devido às grandes porosidades que propiciam “as condições ideais para o desenvolvimento de microorganismos”.

 

A Slatetec (slate é a palavra inglesa para ardósia, enquanto tec é uma abreviatura de tecnologia) pode ainda imitar — “e imita bem de mais”, ressalva o administrador da empresa parceira do projecto — o aspecto da própria ardósia. “Quisemos desenvolver um material que não substituísse, mas que fosse complementar à ardósia natural”, comenta Fernando Cunha.

 

O projecto está “completamente desenvolvido a nível tecnológico” e prepara-se para entrar numa segunda fase, que vai abarcar a produção de protótipos numa pequena unidade industrial piloto que deverá estar a funcionar em Setembro e onde deverão ser criados mais dois postos de trabalho na empresa de lousas centenária que emprega 40 pessoas. O objectivo é apresentar o produto que está pensado desde o início para exportação em mercados já conhecidos da empresa, como o norte da Europa, ou os Estados Unidos, Canadá e Japão, países que pensam “estarem abertos a este tipo de materiais”, enumera Rui Teotónio Pereira. No total, para esta fase, está previsto um investimento de 500 mil euros, suportado também por uma candidatura ao Portugal 2020.

 

Este não é o primeiro projecto de reaproveitamento de desperdícios inertes que a empresa tenta implementar. “Não é uma preocupação nova para nós, porque achamos que é um dever do explorador aproveitar totalmente o recurso natural que está a explorar”, acredita, acrescentando que, por ali, se aproveita cerca de 45% das 50 toneladas de ardósia diárias que extraem. Com este projecto, a “economia linear que até então a empresa vivia” fecha-se num círculo sustentável e “grande parte do desperdício que é gerado ao longo do processo é reintroduzido como nova matéria de um novo processo”. 

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