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Crónica

Ciência: o sobrefinanciamento mole e o excesso de “one night stands”

A questão é extraordinariamente simples: quando algo ou alguém é inacreditavelmente bom não se coloca um prazo de validade, nem se inventam desculpas esfarrapadas para não se assumir um compromisso sério. Está na hora de pensar a longo prazo

Texto de David Sobral • 22/12/2017 - 15:48

David Sobral
David Sobral, Professor Universitário, Astrofísico

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A política e o financiamento da Ciência e do ensino superior em Portugal parecem adolescentes modernos viciados no Tinder e com medo de assentar e/ou de assumir um compromisso. Mesmo que estejam perante a Marie Curie ou o Albert Einstein. Estão sempre prontos a dar likes a imensos candidatos e candidatas ao sabor de uma ou duas cervejas baratas, mas começando todo e qualquer encontro com “olha que isto é só mesmo para curtir, nada de pensar em algo sério”. É tudo a prazo, seja como correr, e nem é possível renovar. Há dinheiro a montes para gastar num prazo fixo sem grande planeamento e para inglês ver, mas aparentemente quase dinheiro nenhum para gastar de forma planeada e para se ir além do horizonte.

 

Tudo isto é fantástico no mundo dos engates e de adultos que escolhem, ambos, viver sem quaisquer compromissos. Já num mundo profissional exigente, e numa área que implica um investimento (compromisso) pessoal, temporal e emocional desmedidos, é só um grande, grande desperdício de dinheiro e vida. Perante tudo isto, a alienação de quase todas e todos os candidatos verdadeiramente internacionais é inevitável. Aqueles e aquelas sem ligações prévias ao país, mas que podem ganhar prémios Nobel e trazer a novidade, a frescura, a diversidade. É como se fosse possível curtir à vontade, sem compromissos, mas apenas com as pessoas que já moram na mesma rua ou bairro.

 

Há demasiado dinheiro mole em Ciência. Sobretudo face à falta de dinheiro “duro” em Portugal. Ou talvez não haja falta de dinheiro duro, mas ele está todo tão próximo de gigantes buracos negros geridos com uma lógica do século passado que é impossível escapar-lhes. Ou então está alocado a funcionários frequentemente estagnados e que se arrastam de aula em aula (a carga horária é ridiculamente alta para todos, mas ninguém fala do elefante na sala), terrivelmente infelizes e desmotivados nos seus postos de trabalho permanentes, mas que, pela escassez de um outro posto, recusam sequer pensar em mudar de vida.

 

Claro que há tentadoras excepções e contratações fantásticas. Há esperança. Mesmo nos mais disfuncionais sistemas surgirão sempre pessoas genuinamente interessadas em Ciência e não nos seus umbigos. O tempo encarregar-se-á de premiar as melhores práticas e de punir os sistemas de cunhas, de expressa endogamia e da exaltação da mediocridade por oposição a qualquer tentativa de implementação de um sistema semi-meritocrático. O problema é que as (novas) políticas continuam a compactuar com o sistema em vigor e a ignorar os problemas profundos, o que pode fazer com que uma guerra nuclear chegue muito antes da necessária reforma da Ciência e ensino superior.

 

A questão é extraordinariamente simples: quando algo ou alguém é inacreditavelmente bom não se coloca um prazo de validade, nem se inventam desculpas esfarrapadas para não se assumir um compromisso sério. Um país não pode ser gerido com a lógica de um adolescente inseguro e com medo de compromissos. Está na hora de pensar a longo prazo, de ver para além do horizonte, de arriscar, e de apostar nas melhores pessoas. E está sobretudo na hora de enfrentar o fosso artificial criado entre as Universidades e a Investigação, de voltar a unir os sistemas numa lógica moderna, meritocrática, aberta e transparente.

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