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Crónica

Women Summit, o evento da desigualdade

Este é um evento que se diz ser realizado para mulheres – mas apenas para as mulheres que paguem 300 euros ou que tenham a sorte de encontrar a promoção dos bilhetes a 40 euros

Texto de Marta Guerreiro • 24/02/2017 - 12:28

Marta Guerreiro
Marta Guerreiro é emigrante e estudante de Jornalismo em Londres, escritora e activista

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O Women Summit é um evento que procura dar voz a mulheres como exemplo de papel activo na política, na economia e na sociedade. De forma elitista e em jeito racista e classista, o Women Summit delimitou bem quem são as mulheres indicadas e na lista não existem termos como mulheres precárias, transgénero ou não-brancas.

 

A indignação nas redes sociais tem vindo a aumentar e, visto que a página tem apagado várias criticas, os print screens acabam por imortalizar a arrogância, o elitismo, o classismo e o não interesse em melhorar. Este é um evento que se diz ser realizado para mulheres – mas apenas para as mulheres que paguem 300 euros ou que tenham a sorte de encontrar a promoção dos bilhetes a 40 euros.

 

Este é um evento que pressupõe existência de consciencialização económica, mas que fecha os olhos ao ordenado mínimo português, condições precárias, taxa brutal de desemprego, falta de apoio das mães solteiras, o preço das rendas, a comida para alimentar uma família. Este evento é para as mulheres, mas só para as que não estejam em situação económica desfavorecida.

 

A hipocrisia capitalista podia ser o único problema do Women Summit, mas não é. A Carolina Elis trouxe-nos, com conhecimento público, o outro lado do evento — a arrogância, o racismo, a indiferença, a falta de empatia e sensibilidade e uma treta de marketing e relações públicas. A Carolina Elis chamou a atenção para a hipocrisia que é querer dar voz a mulheres, enquanto existe uma óbvia desigualdade no que toca a mulheres negras, filhas de empregadas e doentes que não podem ter lugar, espaço ou oportunidade de participar. O que recebeu em troca foi um comentário da Women Summit, que considera a crítica “um absurdo lamentável” e "ridícula e medíocre a leitura". E despedem-se afirmando que o nome dela “não contará para a história”. A equipa não se fica por aqui. Em resposta a comentários de outras mulheres indignadas, a marca afirm: "A questão de raça, religião ou orientação sexual de cada um não é um ponto de partida porque constitui para nós um não-assunto: somos todos iguais." Portanto, a discriminação social, politica e económica com base na raça, religião, orientação sexual e identidade de género não importa. Um evento que pretende promover a igualdade e criar um espaço de debate e partilha feminista com pontos políticos, sociais e económicos é, na verdade, racista, homofóbico, transfóbico, elitista e classista.

 

Eu não sei quanto a não-assuntos, mas sei que promover um evento com arrogância, comportamentos passivo-agressivos e falta de empatia não merece fazer história. Eu não sei quanto a não-assuntos, mas sei que promover a igualdade com tamanha desigualdade não merece fazer história. Ainda assim, no meio da minha ignorância de geração emigrada na procura de condições acima do razoável, há coisas que sei: que as mulheres trans, lésbicas, bissexuais, precárias, negras, não-católicas e mães solteiras têm vindo a fazer história através do activismo, da empatia, da sororidade e do boicote de eventos hipócritas. Enquanto evento que promove a igualdade, o Women Summit está para o Correio de Manhã como fonte credível de jornalismo. E não, isto não foi um elogio.

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